Se você realizasse uma busca num dicionário online nos últimos meses, tentando entender esse negócio de Pokémon, você teria sido corrigido pela pergunta “Você quis dizer ‘pikeman’?”, um soldado armado com uma pike (em português: pique, nome dado a uma lança antiga). Porém, desde o último dia 19 de Julho, se você realizar a busca no Dictionary.com, encontrará os seguintes resultados:

  1. a media franchise including video games, animated television series, movies, card games, etc. that depict a fictional class of pet monsters and their trainers.
  2. a pet monster in this fictional world.

Em português:

  1. Uma franquia de mídia que inclui vídeo games, séries animadas de TV, filmes, jogos de cartas etc. que representam – de forma ficcional – uma classe de monstros de estimação e seus treinadores.
  2. Um monstro de estimação nesse mundo ficcional.

O nome da lucrativa franquia da Nintendo foi criado por meio de um processo conhecido como wasei eigo. Essa frase, de acordo com o escritor John Kelly, significa “Inglês feito no Japão” e se refere ao processo dos falantes de japonês ao pegar “porcas e parafusos do inglês” e “montá-los para criar novas palavras em japonês.” Em casos raros, se o termo prova que é popular ou útil o suficiente, os falantes do inglês o pegam emprestado de volta.

Numa versão comum desse processo, os falantes do japonês começam com uma palavra do inglês – nesse caso, as matérias primas são pocket (bolso) e monster (monstro) – e eles as transformam para soar como uma típica frase em Japonês e descrevem um conceito novo, diz Kelly. As palavras são soletradas no sistema de escrita japonês utilizado para palavras estrangeiras, chamado katakana, e os acadêmicos chamam esse passo de katakanização.

Ao lançar o jogo nos anos 90, o desenvolvedor Satoshi Tajiri pegou as primeiras sílabas de cada palavra katakanizada – poketto monsutā – e as misturou. O inglês virou japonês e depois voltou a ser inglês.

Kelly, que é especializado em etimologia, aponta outro exemplo de palavra que passou pela máquina do wasei eigo e terminou nos dicionários de inglês: cosplay, a prática de se caracterizar como o personagem de um filme, livro ou vídeo game. Os japoneses transformaram a palavra costume (roupa, traje, fantasia) e play (brincadeira, divertimento, passatempo) em kosupure, o que se transformou em cosplay quando os falantes do inglês trouxeram a palavra de volta o seu idioma.

Talvez o exemplo mais conhecido seja karaokê. Suas raízes, de acordo com Nathan Hopson, da Universidade de Nagoya, são as palavras kara (vazio) e ōkesutora (palavra katakanizada para orquestra).

O fato de a palavra Pokémon aparecer no dicionário não significa um testamento absoluto de que ela seja parte do inglês padrão, mas é a evidência de que o Pokémon tem vida própria do outro lado do Pacífico.

Além disso, as pessoas estão quebrando o termo e formando novas palavras como pokémania, para descrever a desenfreada paixão pelo Pokémon Go. A candidata Hillary Clinton verbalizou recentemente o título do jogo, dizendo que ela gostaria de “pokemonizar” nas pesquisas. E, enquanto o termo Pokémon – no japonês – abrange as formas singular e plural, no inglês os monstros de estimação são chamados de pokémons, da mesma forma que dizemos e escrevemos emojis, termo que vem das palavras imagem (e-) e personagem (moji).

Para Kelly, uma palavra estrangeira se torna um termo em inglês quando muitas pessoas estão “usando de forma natural e regular dentro de uma variedade de contextos.” Esse entendimento costuma acontecer mais rápido quando a palavra cumpre um papel específico, dando às pessoas um termo que descreva algo que nenhuma letra (ou conjunto de letras) consiga. E, se você estiver obcecado por eles ou cansado de ouvir pessoas falando dele, o fato é que os monstros de estimação não terão outro nome.

Texto adaptado de http://time.com/4411912/pokemon-go-word-origin/

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